domingo, 7 de abril de 2019

história sem nome

Joaquim levanta da cama num pulo. A brecha da telha deixou entrar o sol que queima a pele da testa. No pulo, sente a ferida da barriga doer. Enxuga o suor da testa, respira esperando a dor passa. E ela passa. Levanta a camiseta para checar se os pontos continuam sarando bem. E graças a Deus estão.

Ele olha para o relógio que está na sala marcando as horas. Não entende nada daqueles números, mas quando associa com a altura do Sol no céu, percebe que já passam das 8 da manhã.

Vai à procura de café, meio apressado. Parece que o sono da noite o faz esquecer sua condição e ele acorda sempre como se estivesse atrasado. Mas não há mais compromissos. As filhas fugiram dele, e da cidade que nada oferecia, para São Paulo. A esposa o deixou por causa da brutalidade dele. Um amor que não mais germinava num coração seco. E enfim, o aposento cai todo mês na conta e ele já não tem mais o que fazer.

A casa portanto, ecoa solidão. Se há barulho, são das galinhas, dos pássaros engaiolados, dos latidos dos cachorros magros. Há a rede na sala, a mesa na cozinha. A solidão tem muito onde se assentar nesta casa vazia. Por fim, o céu por cima de tudo e a terra abaixo. Mas já não pode mais arar, colher, plantar.

Dia desses, ajoelhou-se sobre tijolos até que seus joelhos sangrassem orando a Deus. Pedia a chuva e outras coisas que só ele e Deus sabem. Não vou me meter a dizer. E bem que a chuva cai no sertão. O mato toma de conta da plantação. E é uma dor maior que ponto inflamado, ver o verde tomar de conta e não poder bulir na terra. Ser verde também. Misturar-se à relva, entregar a terra o seu suor até esquecer-se.

Tendo bebido o café, e querendo manter aqueles dentes que te restam, vai ao banheiro escovar-se. Na frente do espelho um homem velho o encara de volta. Sabe que falhou como pai, como esposo. E agora, depois da ferida, nem agricultor pode ser. Não quer saber do rádio, nem liga para a tv. Vê os dias passando, deitado na rede. A tela que assiste é a porta aberta para a rua. Quem vai e quem vem neste sítio quase desabitado é seu entretenimento.

Vai abrir a porta agora, deitar na rede e esperar. Esperar o filho que talvez venha, talvez não venha visitar. Esperar a cozinheira para lhe fazer o almoço. Esperar a morte, se tivesse sorte, ele matuta. Se benze, “vade retro”. Queria morrer no mato, picado de cobra, exaurido de arrancar toco, o que fosse... Mas deitado numa rede, não. Só não quer mais dar trabalho para o povo. Pensa nessas coisas e despensa. Desenrola a rede para armar e um sólido preto, cheio de folhas que ele não entende, mas que sabem ser sagradas, cai no chão. Havia esquecido que na noite anterior o livro estava dentro da rede e enrolara tudo sem perceber. Apanha aquele sólido, assopra a capa. Então, decide que vai aprender a ler.

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